Amar ou tolerar

Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer, nem por sórdida ganância, mas de boa vontade nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o supremo pastor se manifestar, recebereis a grandiosa coroa de glória.”
(1Pe 5.2-4)

abraço 2

 

Como pastores do rebanho do Senhor sempre teremos que nos deparar com este dilema: pastorear aqueles que ninguém gostaria de pastorear, amar e conviver. Estamos acostumados a buscar a fácil tarefa de fazer o que é mais simples, de preferência junto às pessoas de convivência amistosa e que não nos trazem problemas, trabalho ou conflitos. A grande questão é: Amar ou tolerar?

Experimento esse dilema no Oriente Médio, onde tenho um convívio muito próximo, a mais de quinze anos, com a comunidade muçulmana. Olhando de perto a cultura, a maneira como tratam as mulheres e a fé radical, o sentimento mais forte frente a isso tudo é a aversão, que leva qualquer um de nós a manutenção de uma distância regulamentar, sem maiores envolvimentos, principalmente, depois dos atentados às Torres Gêmeas que colocaram a opinião pública contrária a tudo que diz respeito ao Islã.

No Brasil, assim como nos Estados Unidos, estão cada dia mais fortes as discussões acerca da posição da igreja frente a outro grupo controverso e difícil de ser pastoreado: os homoafetivos. As demandas e imposições feitas por esta minoria, assim como suas práticas, nos causam repulsa, fazendo com que o embate de opiniões e a dificuldade do convívio, mesmo em uma sociedade democrática, se tornem cada vez mais difíceis. Mas a pergunta é sempre a mesma: Quem vai alcançá-los com a mensagem do amor de Cristo? Quem vai pagar o preço pela caminhada de amor e não apenas de tolerância?

Podemos também colocar outro segmento nesta análise: os católicos. Por muitos séculos os seguidores do Vaticano e os evangélicos, frutos da Reforma e movimentos separatistas dos séculos 15 e 16 trocam farpas que impedem a aproximação e o convívio. Minha pergunta é: até quando? Na igreja de Roma um grupo considerável de fiéis já se assemelha em fé e prática do ortodoxismo evangélico, levando a uma proximidade sem precedentes principalmente do segmento carismático.

Para que Cristo volte, algo vai ter que acontecer. Estes grupos citados por mim e muitos outros, por uma obra divina, serão aproximados, não para pensarem e praticarem o que gostaríamos, mas para juntos, nos achegarmos a Cristo e ao Espírito Santo que realizará a obra de transformação em cada coração.

Os primeiros discípulos de Cristo tinham esse dilema. Para Pedro e seus pares, gentios, nem pensar. Eram tolerados de longe. Mesmo depois do evento na casa de Cornélio, esses, fora da comunidade judaica, só poderiam ser aceitos se fossem circuncidados. Paulo foi então, levantado por Deus para alcançar os impastoreáveis gentios, e por isso, temos hoje a verdade de Deus e o amor de Cristo nos confins da Terra. Acredito que, algo assim, como ocorreu no passado, terá que acontecer também em nossos dias. Ainda temos muitas exigências, assim como os judeus o tinham, para que os de difícil convivência e aceitação, que estão fora de nosso contexto, possam ter a confiança para então, se aproximarem de nossa pregação sem preconceitos.

Temos, portanto, que nos preparar para a hora em que Deus vai abrir as portas, as quais deveremos aproveitar com sabedoria, amor e muita responsabilidade. Eu sei que é uma tarefa árdua, para fazermos com que as barreiras que nos separam de um grande contingente de ovelhas sem pastor, que parece hoje ser impastoreável, possa então, em um futuro próximo, ser abençoado por nós. A questão para o pastor é sempre a mesma: amar ou tolerar.

Fotos: Reprodução internet

 ::Asaph Borba

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